A opinião de ...

Não se deixa ninguém para trás

Depois de dois meses de confinamento, o regresso à normalidade do dia a dia está a ser feito na medida do possível mas com vários sinais de ansiedade.
Apesar de o Governo já ter alargado a permissão para ajuntamentos até dez pessoas, diariamente assistimos a exemplos de regras quebradas. E, nos últimos dias, foi a criminalidade a regressar à normalidade possível. As várias intervenções a que a PSP foi forçada demonstram que até nesse particular – o crime – a ansiedade pelo regresso era grande. Sendo certo que a rápida atuação permitiu detenções em dois casos que ameaçavam fazer perigar o sossego da comunidade, os ajuntamentos de jovens têm sido cada vez mais frequentes e não só à noite, obrigando a cada vez mais intervenções das autoridades.
Enquanto isso, espreitando o que se vai passando na capital, constata-se que o desconfinamento, por lá, não corre da melhor maneira. Se, por um lado, temos a ansiedade dos mais novos que potencia os comportamentos de risco, por outro temos o risco acrescido dos transportes públicos e do regresso ao trabalho das grandes empresas, com centenas e milhares de trabalhadores a partilhar os mesmos espaços exíguos.
Por cá, no Nordeste Transmontano deparamo-nos com estatísticas praticamente a zero. Há mais de uma semana que não se regista um caso novo no distrito, sendo que o concelho de Bragança, o mais afetado dos 12, não tem um caso novo desde o dia 05 de maio, há praticamente um mês.
Olhando para os dois parágrafos anteriores, constatamos que o país circula, novamente, a duas velocidades. Mas, mais uma vez, as medidas decididas em Lisboa têm como ponto de partida o cenário que está à frente dos olhos de quem manda, que decide por igual o que é diferente.
O desconfinamento não tem de ser todo da mesma forma de norte a sul. Se há realidades diferentes, devem ser tratadas de forma diferente. Se a realidade de territórios como os da capital é uma, não se podem aplicar medidas tendo por base os dados dessa zona do país noutra em que as estatísticas indicam um cenário oposto. Sob pena de se estar a cavar um fosso ainda maior entre o interior e o litoral.
Em épocas de crise, a política não deve ser o “salve-se quem puder” ou o “um por todos, todos por Lisboa”. Olhar para a economia das zonas raianas e tomar medidas de acordo com a situação e não manter todos cativos do que acontece em redor do Terreiro do Paço deve ser um imperativo. Porque enquanto lá se luta para conter a doença, por cá luta-se para sobreviver à cura. O Estado não deve deixar ninguém para trás e já se sabe que numa crise são os mais fracos que levam por tabela mas o remédio deve ser o indicado para as patologias apresentadas e não dar a mesma aspirina a todos os males.
Para que os que em tempos migraram para o litoral tenham para onde voltar em época de crise, é imperioso perceber que a economia daqui precisa de outros estímulos e sobrevive com outros expedientes. Se cá não há gente, ela tem de vir de outros lados. E convém que o possa fazer e em segurança.

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