A opinião de ...

Um Natal que não agrada a Deus

Como se não bastasse o consumismo marcar a quadra natalícia, esta é antecedida pela Sexta-feira Negra (Black Friday) que se transforma numa corrida desenfreada às lojas para a compra de prendas. O contraste com as circunstâncias em que se verificou o nascimento de Jesus não podia ser maior. Ele nasceu fora da cidade, num estábulo, rodeado por animais. O relato menciona que uns magos do oriente trouxeram uns presentes ao Deus menino. Hoje, para um cristão, os mais pobres são o rosto de Jesus. Têm, por isso, um sentido profundamente cristão todas as campanhas de solidariedade promovidas nesta quadra.
Já o consumismo exagerado que a Sexta-feira Negra promove não será nada agradável a um Deus que nasceu pobremente em Belém. Esta, como o Halloween, é mais uma tradição importada dos Estados Unidos que tem contribuído para “tornar normal um consumo exagerado, o consumir por consumir, não por necessidade”, denunciou o cardeal Juan José Omella, arcebispo de Barcelona, em texto publicado no sítio de informação “Religión Digital”.
“Enquanto alguns vivem a loucura do consumismo, outros saem à rua à procura de outro tipo de oportunidades; obtê-las também será uma grande aventura (...) Esses aventureiros são os pobres da nossa sociedade. Para eles, todos os dias são Black Fridays, dias sombrios, porque diariamente eles precisam de procurar a vida. Alguns, faça frio ou calor, aguentam estoicamente longas filas para serem servidos ou encontrarem uma refeição num refeitório social. Tudo para economizar alguns euros e, se tiverem sorte, também podem encontrar pechinchas comestíveis: iogurtes prestes a caducar, frutas com mau aspeto... Chegam a suas casas (os que as têm) exaustos, mas também satisfeitos por terem conseguido algo. No dia seguinte, outra aventura cheia de emoções os espera”, escreve o cardeal de Barcelona.
Há, contudo, quem queira remar contra a corrente do consumismo e procure chamar a atenção para os efeitos nefastos desse comportamento na preservação do ambiente. Na passada sexta-feira, o sítio de informação religiosa “Sete Margens” chamava a atenção para uma campanha que pretende “despertar consciências e contrapor-se ao apelo consumista da ‘black friday’”. Foi promovida por uma rede de agências católicas constituída pela FEC – Fundação Fé e Cooperação, Associação Casa Velha e CIDSE – Organização de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento e Solidariedade.
“Reduz, transforma, reutiliza, altera” é a sugestão que deixam a todos os que se preocupam com os efeitos que o consumismo pode causar ao planeta. Num vídeo desafiam as pessoas a comprometerem-se a dar pequenos passos na redução dos seus consumos e a partilhá-los na página que criaram para o efeito.
É muito difícil de combater, o consumismo. O Papa Francisco já o classificou como uma doença – e como um pecado. “Se não lutarmos contra esta febre que a sociedade de consumo nos impõe para nos vender coisas, acabamos por nos transformar em pobres insatisfeitos”, alertou o Papa na exortação apostólica “Gaudete et Exsultate”. Para além disso, como sublinha a campanha promovida por aquela rede de agências católicas, o consumismo põe em risco a sustentabilidade do planeta.
Um Feliz e Santo Natal!

Edição
3759