Ricardo Mota

Lei da Vida...

Foi local de acolhimento, de quietude, de meditação. Fui lá, vezes sem conta, pelo fresco do nascer do dia. Chegava cedo, a rondar as sete, com o sol ainda por detrás dos picos das serranias. Estacionava o carro em cima do tojo ressequido pelo sufoco de Agosto, chão raso apropriado ao efeito, o pó acumulado camuflava os cintilares das cromagens e dos vidros protetores. Uma velha cadeira de praia, carcaça de alumínio e lona riscada multicor, foi companheira todas as vezes que por aqui demandei. Mas o livro, o propósito deste querer, variou ao sabor dos palpites, da curiosidade.


Do Aquém para Além…

Esparramado no sofá, desleixado, no poiso que me desconforta. Mesmo em frente, no tampo de um velho e baixo baú, a tecnologia que droga, que mata, que tudo em redor seca, dois venenos, o comando da TV e um smartphone, a rotina que destrói. Hoje vou viajar através da linha do tempo, do passado para o futuro. Avanço pelo virtual, fecho os olhos, rodo ignição da Cápsula Teletransportadora, escolho, e zás, lá vou.


Bode Expiatório…

Existe um local, lá para o nosso Nordeste, o Transmontano, ali num emaranhado de estradas que se entrelaçam, vindas e indo para Macedo de Cavaleiros, Alfândega da Fé, Vila Flôr e Mirandela, é nó ancestral e com história. Não consta, pelo antigos, de ter vivido por aqueles sítios qualquer surdo conotado com a toponímia. Dizem os entendidos que a palavra foi-se adaptando aos tempos sendo de origem invasora mas com toda a certeza designando local de separações e origens, seria Marco/Meco, chegando até nós como Mouco, Cruzamento do Mouco, agora esventrado pelo IP2, numa das fraldas de Bornes.


Cabeçudos e Gigantones…

A Feira de Maio, lá no meu longínquo Felgueiras, oferecia-me o Paraíso, o mundo faz-de-conta, a ilusória felicidade. Nesta primeira semana do mês, deixava-me ir na palete multicor que se instalava no velho Campo da Feira, resvés com a casa da família, rente ao meu espaço de brincadeiras, aos nossos muros.


A Decepada…

Lá no tempo dos meus verdes anos, dos sonhos e frustrações, do tudo ou nada, do convívio e solidão, da ânsia e fortaleza, caminhava de cabeça erguida, não de altivez mas sempre no perscruto e indago. No Porto cidade, diluí-me nas escadinhas e nas penumbras das ruas estreitas, errei nas calçadas e vielas, tornei-me amigo dos beirais e claraboias, inebriei-me no fixar colorido dos azulejos, senti o bater do coração de um burgo que pulsa comigo.


Dos Confins do Tempo…

Gosto de olhar, observar para além do ver é paixão que transporto agarrado às peles que me vestem o ser. Na infância, no Felgueiras meu berço, todos fabricávamos a torcida que haveria de fazer girar o pião, objecto mágico que enchia os bolsos da rapaziada. Um carrinho de linhas, gasto e de madeira, quatro pregos e um arame, eis os custos de uma máquina de produção de torcidas. A linha eram os nagalhos ou atilhos que já ninguém queria, atados num emaranhado de nós.


Rua da Augusta Figura do Rei...

Pestanejei, fez-se clic na memória, prodigioso, deixei-me ir neste veículo intemporal, autónomo, com a força da natureza, a custo zero, apenas o da mente. E lá vou, no faz de conta, dentro do iate Britânia, de Setúbal ao Cais das Colunas, em Lisboa, tal como o fez a Rainha Isabel II de Inglaterra, há cerca de sessenta anos, em 18 de Fevereiro de 1957, com 31 anos de idade e já cinco de reinado. Existem várias portas de entrada na capital, como as de Benfica, mas esta, a da água, é sem dúvida a mais nobre.


Na Senda de…

Conheço, de coração, esta Trilogia, a Fé trilhou as pedras e poeiras, sentem-se no ar as preces de quem procurou o conforto da alma e do corpo pois que lá no fim, após sofrido esforço, as preces lacrimosas de quem teme, tocarão fundo no que perto está do Senhor, do Criador, do Omni.
Um dos lugares que vos conto ondula a caminho do Sabor, os montes e vales, possuídos de secura ancestral, oferecem-nos, em dádiva, um verde único, invejável, oscila nas inesquecíveis cores prediletas de Van Gogh, do castanho ao verde, de meão amarelo, ofuscante e hipnotizador.


Saúde Desigual…

Tendo como causa meu último artigo neste jornal “Igualdade, em vão…” amável e atento leitor alertou-me para um “facto” desatualizado, incorreto, pois que a ADSE já não é financiada pelo Orçamento Geral do Estado. De facto, porque manco de equidade, esse apoio está proibido desde 2014.