Ricardo Mota

Advir…

O atrevimento leva-nos, algumas vezes, a deixar correr a mente nos trilhos do livre pensamento. Colocando de lado os defeitos de produção, fácil conceber que, à nascença, teremos todos um cérebro semelhante mais que preparado para receber a informação que aí vem. Ciente de que todos trazemos um estandardizado chip de sobrevivência, será a forma como armazenamos os estímulos do conhecimento que nos vão distinguir, individualizando o eu de cada um, feito de corpo, mente e alma.


Uma Agenda…

Na régua cimeira dos caixilhos dos quadros negros, de ardósia, das velhas Escolas Primárias do Estado Novo que povoaram Portugal, de Norte a Sul, existiam impercetíveis preguinhos, esquecidos, sem dar nas vistas. Estavam ali para um dia, nas datas estipuladas, nos tempos programados, emergirem da clandestinidade, para serem usados como penduradores, veríamos pela primeira vez, os famosos mapas: linhas de comboio, rios e atlas.


Lei da Vida...

Foi local de acolhimento, de quietude, de meditação. Fui lá, vezes sem conta, pelo fresco do nascer do dia. Chegava cedo, a rondar as sete, com o sol ainda por detrás dos picos das serranias. Estacionava o carro em cima do tojo ressequido pelo sufoco de Agosto, chão raso apropriado ao efeito, o pó acumulado camuflava os cintilares das cromagens e dos vidros protetores. Uma velha cadeira de praia, carcaça de alumínio e lona riscada multicor, foi companheira todas as vezes que por aqui demandei. Mas o livro, o propósito deste querer, variou ao sabor dos palpites, da curiosidade.


Do Aquém para Além…

Esparramado no sofá, desleixado, no poiso que me desconforta. Mesmo em frente, no tampo de um velho e baixo baú, a tecnologia que droga, que mata, que tudo em redor seca, dois venenos, o comando da TV e um smartphone, a rotina que destrói. Hoje vou viajar através da linha do tempo, do passado para o futuro. Avanço pelo virtual, fecho os olhos, rodo ignição da Cápsula Teletransportadora, escolho, e zás, lá vou.


Bode Expiatório…

Existe um local, lá para o nosso Nordeste, o Transmontano, ali num emaranhado de estradas que se entrelaçam, vindas e indo para Macedo de Cavaleiros, Alfândega da Fé, Vila Flôr e Mirandela, é nó ancestral e com história. Não consta, pelo antigos, de ter vivido por aqueles sítios qualquer surdo conotado com a toponímia. Dizem os entendidos que a palavra foi-se adaptando aos tempos sendo de origem invasora mas com toda a certeza designando local de separações e origens, seria Marco/Meco, chegando até nós como Mouco, Cruzamento do Mouco, agora esventrado pelo IP2, numa das fraldas de Bornes.


Cabeçudos e Gigantones…

A Feira de Maio, lá no meu longínquo Felgueiras, oferecia-me o Paraíso, o mundo faz-de-conta, a ilusória felicidade. Nesta primeira semana do mês, deixava-me ir na palete multicor que se instalava no velho Campo da Feira, resvés com a casa da família, rente ao meu espaço de brincadeiras, aos nossos muros.


A Decepada…

Lá no tempo dos meus verdes anos, dos sonhos e frustrações, do tudo ou nada, do convívio e solidão, da ânsia e fortaleza, caminhava de cabeça erguida, não de altivez mas sempre no perscruto e indago. No Porto cidade, diluí-me nas escadinhas e nas penumbras das ruas estreitas, errei nas calçadas e vielas, tornei-me amigo dos beirais e claraboias, inebriei-me no fixar colorido dos azulejos, senti o bater do coração de um burgo que pulsa comigo.


Dos Confins do Tempo…

Gosto de olhar, observar para além do ver é paixão que transporto agarrado às peles que me vestem o ser. Na infância, no Felgueiras meu berço, todos fabricávamos a torcida que haveria de fazer girar o pião, objecto mágico que enchia os bolsos da rapaziada. Um carrinho de linhas, gasto e de madeira, quatro pregos e um arame, eis os custos de uma máquina de produção de torcidas. A linha eram os nagalhos ou atilhos que já ninguém queria, atados num emaranhado de nós.


Rua da Augusta Figura do Rei...

Pestanejei, fez-se clic na memória, prodigioso, deixei-me ir neste veículo intemporal, autónomo, com a força da natureza, a custo zero, apenas o da mente. E lá vou, no faz de conta, dentro do iate Britânia, de Setúbal ao Cais das Colunas, em Lisboa, tal como o fez a Rainha Isabel II de Inglaterra, há cerca de sessenta anos, em 18 de Fevereiro de 1957, com 31 anos de idade e já cinco de reinado. Existem várias portas de entrada na capital, como as de Benfica, mas esta, a da água, é sem dúvida a mais nobre.