A opinião de ...

Afinal, quem matou a Valentina?

Passaram quase duas semanas sobre o crime hediondo que vitimou a menina de Atouguia da Baleia. Como ninguém atirou a primeira pedra, para que não continuem a ser assassinadas outras Valentinas inocentes, renovo o desafio lançado na semana passada nas páginas deste jornal, esperando de todos e de cada um de nós, as respostas em conformidade com as próprias responsabilidades.
A resposta óbvia e mais fácil, seria dizer que foram os pais que, face à aparente evidência dos factos, até já foram julgados e condenados pela justiça popular e só não foram lapidados na praça pública porque vivemos num estado de direito, onde a ninguém é permitido fazer justiça pelas próprias mãos, e ainda bem. Mas não, o caminho nunca poderá ir só por aí. Quando se vive numa democracia moderna, livre e civilizada, em crimes desta natureza a investigação tem de ir até às últimas consequências e, com isenção, ponderação e bom senso, analisar todas as causas, motivações, e até omissões que os potenciam. Agora que da responsabilidade individual dos autores materiais deste crime já se disse quase tudo, para bloquear as tentativas de ilibar, quem sabe se não os grandes responsáveis, e evitar que tudo caia no esquecimento, é essencial que se analise também a responsabilidade coletiva e social. Leve o tempo que levar, não pode ficar a mínima dúvida e, custe o que custar e doa a quem doer, chegou o tempo de, com rigor e transparência, questionar todas as situações que houver que questionar, estando especialmente atento a:
- Todas as instituições parasitárias que ninguém sabe para que servem;
- Os arautos de sociedades sem princípios, sem valores, e sem vergonha;
- Aos que submetem a dignidade do ser à ganância do ter e do poder;
- Aos que julgam que podem fazer tudo dos filhos, desde torturá-los, “vende-los”, descartá-los, ou até matá-los ainda antes de nascerem;
- Aos que tratam as crianças como mercadorias transacionáveis ou bodes expiatórios de relações mal resolvidas, quando elas não tiveram qualquer culpa de serem filhos de pais que não escolheram e não as mereciam;
-Ás comissões de defesa disto e daquilo que pouco ou nada fazem pelas crianças e, quando fazem alguma coisa, já é tarde ou sai asneira.
- A quem troca a dignidade sublime duma maternidade responsável pela compra egoísta do direito de chamar “seus filhos” aos filhos dos outros.
Poderá não ser fácil, mas o nosso futuro coletivo e a dignidade das crianças merecem bem tudo isto e muito mais.

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