A opinião de ...

Evocação do 25 de Novembro

A mensagem, lacónica dizia: morreu o Luís de Macedo. Tratava-se do coronel (capitão de Abril) morto em Moçambique vítima de covi19. O Luís foi figura destacada do 25 de Abril e do PREC.
Porque possuía competências para tal, era engenheiro, trabalhava em Moçambique, frequentava a Associação 25 de Abril quando estava por cá, fiel aos princípios imanentes à instauração da liberdade no País mantinha-se atento ao desenrolar da vida política nestes tempos conturbados e complexos.
A sua morte, neste mês de Novembro, leva-me retroceder na máquina do tempo, aos meses e dias agitados do mês dos magustos no ano de 1975.
O caldeirão fervia ao ritmo da fogueira de fogo revolto do espectro de uma ditadura estilo Cuba, por um lado, por outro o panelão onde os ressabiados sopravam as brasas convencidos de ter chegado o momento da vingança, esturricando no braseiro dos amantes da democracia o Grupo dos 9 apoiados por os moderados e, vivamente, defendidos através dos acolitados no Jornal Novo, no qual o seu director (também falecido em consequência da mesma maleita há duas semanas) Artur Portela Filho, jornalista e escritor.
Nessa altura vivia em Santarém, na mesma rua e em frente à casa onde morava o malogrado Fernando Salgueiro Maia que na livraria Apolo dizia aos amigos para não temermos e, nós temíamos como agora tememos a Pandemia, pois todos conhecíamos os alcatruzes da história cruel, sórdida e sanguinária dos totalitarismos implacáveis para com os adversários. Ora, o insuspeito Nikita ao pôr cá fora, da URSS, o famoso relatório secreto do PCUS no qual se denunciavam os crimes de Estaline e do executado Béria sanguinário e preverso, levava a todos quantos conheciam tal documento e outros semelhantes sem esquecer o assassinato de Trotsky a recearmos a ascensão dos gonçalvistas onde medrava a pulsão do Coronel Varela Gomes. Alguém denominou esses dias como tempo de chumbo, era.
Se fizermos um inquérito em Bragança ou Mirandela a inquirir junto dos «doutos» perguntando-lhe como analisa o papel de Melo Antunes e restantes resistentes aos apelos das franjas extremistas auguro respostas miméticas, sem visão de conjunto e, por isso mesmo, redutoras e a plasmarem a ideia do acto do 25 de Novembro ser uma querela exclusiva dos militares a que o resto da sociedade foi alheia.
Não foi indiferente às comunidades, movimentou homens e algumas mulheres, provocou desgostos, cortes de relações, forçados exílios, perseguições, recrudesceu o conceito de hoje tu, amanhã eu, tão bem explicado pelo notável novelista duriense Domingos Monteiro em Histórias Castelhanas a propósito da guerra civil espanhola.
Vários militares oriundos do Nordeste participaram nas dança e contradanças do período que evoco e, por dever de profunda amizade, lembro o generoso e destemido Salgueiro Maia por nunca ter capitulado ante ameaças, bajulações e abjectas ciumeiras. O capitão Salgueiro Maia aguentou estoicamente o exílio lembrando Afonso de Albuquerque mal com os homens…

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3809