A opinião de ...

EgoCovid – o vírus sem cura

1 - Nos últimos 2 anos e meio, a epidemia do Covid-19 colocou toda a Humanidade em sobressalto pelo seu alto índice de mortalidade e pelas sequelas que deixou em muitas das suas vítimas. Felizmente, a ciência conseguiu, num curto espaço de tempo, encontrar uma vacina que reduziu significativamente o seu índice de mortalidade. Mesmo assim, o número oficial de vítimas mortais, até 31 de Dezembro de 2021, aproximou-se dos 6 milhões. No entanto, um estudo da revista científica The Lancet, calcula que o número real de mortos, nesse período, seja de 18,2 milhões.

2 - Se o vírus da Covid-19, nos últimos 2 anos, fez estremecer toda a Humanidade, a invasão da Ucrânia pela Rússia veio chamar-nos a atenção para outro “vírus” que a História da Humanidade nos reporta desde os primórdios da vida humana. Esse vírus é o do Egocentrismo, que torna o ser humano capaz dos atos mais ignóbeis e muito próximos da vida selvagem dos animais irracionais, ainda que disfarçados, tantas vezes, da motivação mais nobre ou dos propósitos mais solidários e fraternos que se possam imaginar.

2.1 - A Bíblia judaico-cristã, por exemplo, reporta-nos o homicídio de Abel pelo seu irmão Caim, movido pela inveja. Mesmo para um não-crente, o registo escrito deste facto não pode deixar de ser entendido como um exemplo paradigmático da violência doméstica, que tem sido uma constante ao longo dos séculos, em todos os povos. Em Portugal, por exemplo, só nos 5 primeiros meses deste ano, foram registados cerca de 10 mil casos de violência doméstica, alguns dos quais com vítimas mortais.
Ainda no domínio das relações interpessoais, o Facebook tornou-se um campo de análise muito interessante, no domínio do estudo do egocentrismo, pela violência verbal usada em tantas mensagens e comentários individuais, por causa da política e do futebol.

2.2 - Se formos analisar as relações entre povos, a História da Humanidade está repleta de casos de violência sem qualquer explicação racional que não seja a ganância e o narcisismo expressos no complexo da supremacia e do primado do Eu sobre o Outro, que podemos simplificar no conceito de Egocentrismo.
Não indo mais longe, o séc. XX reporta-nos 2 Guerras Mundiais, com milhões de vítimas mortais, o que nunca tinha acontecido no passado. A II Guerra Mundial, provocada pela paranoia pretensamente nacionalista e racista de Hitler, deixou mais de 20 milhões de mortos. Mas isso foi só o começo duma ideologia, agora denominada de extrema-direita, que deixou mais umas centenas de milhares de mortos no Chile de Pinochet, na Argentina dos generais e em vários outros países da América do Sul e do resto do mundo.
No entanto, esta violência gratuita não foi um exclusivo da extrema-direita, porque também a esquerda marxista espalhou, por esse mundo fora, um ódio selvagem, ainda que disfarçado de defesa da classe dominada contra a classe dominante, e vazado em milhões e milhões de vítimas mortais, desde os arquipélagos de Gulag da ex-União Soviética, com mais de 60 milhões de mortos, até à China de Mao-Tsé-Tung, que só entre 1958 e 1962 matou, à fome, cerca de 100 milhões de camponeses, segundo os cálculos de alguns historiadores, e que chegou a reivindicar o direito de matar metade da Humanidade, se isso fosse necessário para que só houvesse comunistas no mundo. Também no Camboja de Pol Pot, os historiadores falam em 1,5 a 2 milhões de mortos, vítimas do genocídio do governo comunista, o que representa cerca de 10% da sua população. Da Coreia do Norte nem vale a pena falar.
Agora, deu-se a invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin, que a justificou pelos “motivos mais nobres”, que ele quis identificar no conceito de “desnazificar” o país vizinho, sendo ele acusado, no entanto, pela grande maioria dos povos, de ser um rival de Hitler pela forma como lida com a oposição interna e com os povos vizinhos.
Falando de invasões duns países por outros, não podemos esquecer a invasão do Iraque pelos EUA, na presidência de George Bush Jr., movido apenas pela ganância focada no mercado do petróleo, apesar de ele invocar o falso pretexto das armas de destruição massiva.
Por outro lado, falando ainda dos EUA, que se diz o país fundador da democracia, há pouco mais de um ano, assistimos à cena pungente e incompreensível de um candidato se dizer vencedor das eleições presidenciais, apesar de os números dizerem o contrário. E o que é ainda mais chocante é o facto de cerca de 70% dos seus votantes acreditarem que isso é verdade, não obstante não haver um único facto que fundamente essa alegação.

3 – Tentando compreender estes e outros factos similares, facilmente poderemos concluir que a única razão que os explica é o Egocentrismo do ser humano, que reivindica, para si, direitos que não reconhece aos outros, e impõe, a estes, deveres que não aceita para si.
E quando falamos deste fenómeno tão universal como o Egocentrismo, estamos a colocá-lo tanto no plano psicológico, como no plano cognitivo e no plano ético, como a História da Humanidade demonstra, desde os primórdios até aos nossos dias, a ponto de o podermos classificar como um “vírus” sem cura, que poderá conduzir a Humanidade para o suicídio coletivo.

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