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Bispo D. Abílio Vaz das Neves já repousa na Catedral

Publicado por AGR em Qui, 2019-06-13 09:43

Quarenta e cinco anos depois do seu falecimento, o 40.º bispo da diocese de Bragança-Miranda, D. Abílio Augusto Vaz das Neves, responsável pela fundação do Mensageiro de Bragança (1 de janeiro de 1940) e principal impulsionador da construção da Catedral, já repousa na Casa de Todos.

Os restos mortais do antigo bispo foram trasladados do cemitério de Ifanes, onde se encontrava sepultado, para a Catedral, onde foram depositados, ao lado de D. António José Rafael, outro dos bispos envolvidos na construção do templo.

“O valor simbólico que se expressa nesta ato real é, para nós, motivo de gratidão pela sua vida e pelo seu ministério aqui na diocese. Consideramos ser um ato justo e necessário. Não só porque ele foi o sonhador do primeiro projeto da terceira tentativa, que ainda teve mais desenvolvimentos até à quinta e última tentativa, é, para nós, significativo, com a família, com a comunidade diocesana, com as Irmãs Servas Reparadoras de Jesus Cristo Sacramentado, pelo Mensageiro de Bragança, pela Fundação Casa de Trabalho, por outras fundações e outros lugares que ele iniciou, sentimos que era justo e necessário. A ocasião proporcionou-se na celebração dos 125 anos do seu nascimento.

Damos Graças a Deus por isso e por este momento solene, simples mas muito digno. Este ato de justiça e de assumirmos a integridade da história. A Igreja não tem de ter medo da história, tem de a assumir com verdade e com esperança. Foi isso que quisemos traduzir neste gesto, neste ano missionário que estamos a viver em Portugal”, explicou o bispo titular da diocese, D. José Cordeiro.

Para a família, este foi “um momento muito agradável”.
“Sentimo-nos reunidos com o meu tio, embora não esteja já presente. Sentimo-nos agradecidos pela organização da diocese. A família sentiu muito a sua luta pela construção da catedral, e a mágoa com que ficou. Ele disse que tinha lutado muito pela catedral e não esperava aquele desfecho”, referiu ao Mensageiro a sobrinha Fátima Vaz das Neves Amaral.

Depois de recolhidos os restos mortais do cemitério de Ifanes, em Miranda do Douro, de onde era natural, a comitiva seguiu até à Catedral, onde foram depositados.
Seguiu-se uma eucaristia, presidida por D. José Cordeiro e em que concelebrou o bispo emérito, D. António Montes Moreira.

“Desde os 11 anos, com o desejo missionário, partiu de Ifanes (Miranda do Douro) para Lisboa e dois anos mais tarde para Cochim (Índia), onde foi formado no Seminário de Meliapor sob orientação dos Jesuítas; aos 25 anos foi ordenado Presbítero; aos 40 anos foi Bispo de Cochim e com 45 anos reentra na nossa amada Diocese para continuar o espírito da missão e da missão com espírito”, recordou D. José Cordeiro, na homilia.

“«Acerca da Sé Nova de Bragança muito tinha a dizer, porque, desde a minha entrada na Diocese, a tenho tido em mente. Mas, para ser breve, porque a entrevista já é longa, repito o que disse acima, e que é o meu grande argumento: a Sé Nova de Bragança é uma necessidade urgentíssima que não pode esperar mais: sente-se, há duzentos anos, desde a transferência do Cabido e o Bispo da Diocese de Miranda para Bragança. A sua realização no prazo dos próximos 6 anos, de 1964 até 1970, em que ocorrem os dois centenários, respetivamente, da transferência do Cabido para Bragança, em 1764, e da aprovação da Santa Sé, em 1770, depende da boa vontade e brio dos Bragançanos e da continuação da boa vontade do Estado; esperamos que, longe de diminuírem, aumentem cada vez mais»”, recordou D. José Cordeiro, citando uma entrevista ao Mensageiro de Bragança a 20-2-1964.

“Todavia, em 20-2-1965 é aceite o pedido da sua resignação. «Deixo a pastoreação da Diocese com muita saudade e com a mágoa que não posso nem devo esconder». A Catedral terá sido a causa do seu sofrimento.

Pelo dom e o mistério da vida episcopal de D. Abílio é justa e necessária esta celebração de memória grata e esperança cristã!”, sublinhou.
No final, escutaram-se três testemunhos. Da Ir. Lúcia Lopes, das Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado, conterrânea de D. Abílio, do Pe. Sobrinho Alves, que foi seu secretário, e de Francisco Cepeda, que com ele também se cruzou.

TESTEMUNHOS
Irmã Lúcia Lopes
"Por ser da mesma terra de origem de D. Abílio Vaz das Neves, Ifanes, Miranda do Douro, desde pequena que a pessoa dele cresceu na minha memória.
Como sou da idade de alguns dos seus sobrinhos, recordo-me das vezes em que ele vinha de férias, da Índia, e me juntava ao grupo de crianças a quem ele falava de Jesus.
Apesar de ser um homem que se impunha pela sua presença e dignidade de homem de igreja era uma pessoa simples, próxima, afável no trato e nunca perdeu o seu sotaque mirandês.
Tenho também presente o momento em que ele veio definitivamente para a Diocese de Bragança. Tinha eu sete anos. Na altura eu ainda não tinha a verdadeira noção do significado deste acontecimento, mas foi neste clima de verdadeiro impulso que a diocese viveu com a sua vinda que foi crescendo a minha vocação.
Foi num dos momentos da sua passagem por Ifanes, quando eu tinha 16 anos, que ele me interpelou: “Está na altura de decidires a tua vocação!” Logo me abri com ele, manifestando-lhe o meu desejo de ser religiosa. Nessa altura ele estava verdadeiramente empenhado na fundação da Congregação das Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado e orientou-me na caminhada para a vida religiosa.
Este é um aspecto que eu gostaria de sublinhar: o acompanhamento que D. Abílio dava à juventude, usando todos os meios para atingir os jovens, desde reuniões na Casa Episcopal ao investimento na Catequese e sobretudo através da sua dedicação ao Sacramento da Reconciliação. Certamente que os outros dois oradores falarão também nesse aspecto. No entanto, eu refiro-me ao acompanhamento individual, ao aconselhamento espiritual que ele fazia, muito na linha do que tanto foi discutido neste último Sínodo dos Bispos sobre os jovens e o que o Papa Francisco deixou na Exortação Apostólica “Cristo Vive” que faz “ressaltar a grande necessidade de figuras de referência” para os jovens e fala de algumas características que eu reconheço estarem presentes na forma de acompanhamento que D. Abílio fazia aos jovens: “que procure constantemente a santidade; que compreenda, sem julgar; que saiba escutar ativamente as necessidades dos jovens e possa responder-lhes com gentileza; que seja muito bondoso e consciente de si próprio; que reconheça as suas limitações e que conheça a alegria e o sofrimento que todo o caminho espiritual implica.” (CV 246)
Durante a vida religiosa sempre vi em D. Abílio um pai espiritual e o mesmo a generalidade das Irmãs da Congregação, a quem ele procurava orientar e aconselhar. Com o Governo Geral da Congregação tinha a mesma atitude. Apesar de ter a legitimidade de fundador, aconselhava e advertia, mas sem nunca impor as suas ideias.
Sempre foi um homem muito espiritual e via a formação como fundamental na vida religiosa. Achando que a formação seria a melhor ferramenta para a renovação, ele aconselhava que as Irmãs tivessem uma sólida formação, não apenas espiritual, mas também técnica, dentro dos serviços a que eram destinadas.
Quando veio do Concílio Vaticano II trazia ideias novas e desejo de implementar aquilo que ali tinha vivido, apesar de ter de se confrontar com mentalidades pouco abertas à inovação. Aliás ele era um homem cuja clarividência e abertura se destacava neste meio.

É justo salientar o seu apreço pela vida religiosa, dado que, além da fundação da minha Congregação ele abriu as portas a vários Institutos de vida Consagrada. 

Depois da sua resignação passou os últimos anos da sua vida na Casa Paroquial de Chacim, onde até à sua morte funcionava a Casa Geral da Congregação. Ali estava atento e disponível para continuar a acompanhar a sua Congregação: dava aulas às noviças, orientava retiros e era uma presença que escutava, rezava e estimulava.

Apesar de não ser ele a fonte de onde brotou a inspiração primordial do nosso Carisma, ele foi o homem que soube ler os sinais dos tempos e apostou e esperou, tantas vezes “contra toda a esperança” ver esta família religiosa que ele ajudou a consolidar com tanto esforço e que, 11 anos após a sua morte, teria o estatuto de Instituto de Direito Pontifício.

Hoje, passando 125 anos do seu nascimento, em nome de toda a Congregação, dou graças a Deus pelo dom da sua vida e deixo aqui o meu tributo de homenagem à sua memória.

 

Bragança, 8 de Junho de 2019"

 

Pe. Sobrinho Alves

Para falar de D. Abílio Vaz das Neves remos que nos situar na teologia e eclesiologia do seu tempo (antes do Concilio Vaticano II) .

A Igreja era então entendida como "Societas omnium viatorum... sub regimine et infalibili magisterium Episcoporum ac praecipere Romani Pontificis ... ad salutem aeternam consequendam...”

Uma igreja pois num movimento claramente definido "de cima para baixo".

Uma Igreja de pendor triunfalista, em atitude de confronto com o mundo, incapaz de perceber o próprio mundo, mas desfasa da dele nas grandes interrogações do tempo, com efeitos variados a nível de mentalidade e de prática. (assim disse S. João XXIII)

Era uma igreja pois em perspectiva societária -institucional, jurídico-organizacional, hierárquico-piramidal.

D. Abílio não poderia pois sair desta identidade de Igreja; no entanto, a sua experiência pastoral em terras do Oriente deu-lhe uma outra sensibilidade pastoral diversa da da cristandade da velha Europa.

Ele era sobretudo um Missionário. E isto fez roda a diferença.

O seu lema episcopal "Tudo posso n'Aquele que me conforta" deixava já antever que o centro da sua acção pastoral seria a pessoa de Jesus Cristo

E, a partir desta máxima , fez suas estas grandes opções pastorais:

 

1ª Opção

• Missões populares em toda a Diocese

(Sempre com 2 missionários a tempo inteiro, durante oito dias; antes das visitas pastorais e dos grandes acontecimentos eclesiais).

2ª Opção

• Organização da catequese sistemática em todas as paróquias

(com uma população infantil de mais ou menos 50 crianças por paróquia, todos frequentavam a catequese dominical e os catequistas eram ajudados pela revista diocesana - "O guia do catequista")

3ª Opção

• Militância laical

(Criação de grupos de acção católica em todas as paróquias com campanhas para cada ano pastoral segundo a metodologia do Ver, Julgar e Agir. Apostolado era a palavra de ordem: Abram alas ... Deus nos chama é nossa a hora"; no dia de Cristo Rei era o grande envio)

4ª Opção

• Eucaristia, fonte de vida Cristã

(A sua grande preocupação: eucaristia preparada, celebrada, adorada; fundação do Carmelo da Sagrada Família em Moncorvo para a vida contemplativa; criação da congregação das Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado para o apostolado; congressos eucarísticos em Bragança, Miranda, Moncorvo e Mirandela; é desse tempo o hino "Óh Deus Sacramentado" do Pe. Simplício Machado

5ª Opção

• Confessionário - Lugar de encontro com a misericórdia de Deus

(Era um dos seus grandes amores : Pastoral da vida em graça; confissões em ordem à comunhão reparadora das primeiras 6as. Feiras de cada mês)

6ª Opção

• Ensino como factor de desenvolvimento

(Reconstrução dos Seminários de Vinhais e Bragança; Construção do Colégio de São João de Brito; construção do Colégio de Mogadouro; colégios paroquiais de Miranda, Vinhais, Vila Flor, Freixo, Carviçais para acolher e formar a juventude)

7ª Opção

• Caridade em tempos de escassez económica

(criação do Patronato de Santo António com a colaboração do Cónego Manuel Formigão; fundação da Casa da Criança Mirandesa; cantinas da Caritas em todas as paróquias para os mais desfavorecidos)

8ª Opção

• Comunicação Social como meio de evangelização

(Criação do Jornal Mensageiro de Bragança também com a colaboração do Cónego Manuel Formigão; edição do "Conversando Inter Fratres” - folha mensal de diálogo com os sacerdotes)

Em jeito de conclusão, e tendo em conta os três anos que fui seu secretário particular, já em época pré-conciliar (1960-1963), onde as ideias fervilhavam em catadupa e punham em causa tantas posições consideradas dogmáticas, dos encontros diários que com ele mantinha fiquei com a convicção que o Sr. D. Abílio era um homem e um Pastor :

1. Simples

2. Corajoso (enfrentando mesmo a própria governação do país (o que não era fácil em tempo de ditadura ) com recados curtos mas claros, mormente no encerramento de eventos culturais. Quantas vezes , nesses momentos, no salão do paço episcopal, o ouvimos dizer: "O Estado é ateu ... ", Certo dia me confidenciou que tinha dito ao então Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes "Tu não saias do país, porque eles depois não te vão deixar entrar" e assim foi, comentava ele.)

3. Com um grande coração eucarístico

4. Com visão de futuro

5. Com alma missionária

6. Homem de oração e silêncio

 

Bragança, 8 de junho 2019"

 

Dr. Francisco Cepeda

 

"Começo por agradecer o convite que o Sr. D. José me formulou para falar nesta ocasião solene.

 

Tive o privilégio de conhecer o Sr. D. Abílio nos meus tempos de aluno da Escola Primária da Estacada. Lembro-me de sempre falar connosco, de lhe puxarmos a batina para beijar o anel, do seu ar bondoso e amigo, enfim, de saber fazer catequese.

Mais tarde pude observar que o seu estilo irradiava uma simpatia dialogante feita de razão, religião e bondade, que continuava a cativar os jovens, impondo-se naturalmente como Pai e Mestre.

O Sr. D. Abílio, logo após realizar exames da 4ª classe, seguiu para o padroado da Índia onde cresceu em tolerância e obteve tais virtudes que, 25 anos mais tarde, mereceu a distinção de ser nomeado Bispo de Cochim.

Em 1939 coube-lhe a honra de ser Bispo na Terra da sua naturalidade, nesta cidade de Bragança.

A chegada à diocese da qual estivera ausente longos anos, veio agitar a vida religiosa, de sacerdotes e fiéis, fazendo-os sair de uma modorra de anos.

 

A pastoral do Sr. D. Abílio teve sempre em linha de conta uma grande sensibilidade aos sinais dos tempos, ao sentido de adaptação à diocese, ao momento histórico que se atravessava e a uma determinada situação local.

Foi esta particular atenção aos problemas da diocese que em 1960, passados 82 anos da última tentativa de construir uma nova catedral, D. Abílio coloca novamente na ordem do dia este assunto, através da publicação a 2 de fevereiro de 1960 da Exortação Pastoral sobre Liturgia Sagrada e a Sé Nova, acolhida com muita alegria por toda a diocese.

Voltava à luz do dia uma ideia que hibernara muitos anos, mas que a luz e o calor emprestados por D. Abílio Vaz das Neves fizeram despertar.

Não perde tempo!

Na festa da Dedicação da Catedral de Bragança, a 15 de novembro de 1960, nomeia uma Comissão para angariar fundos na cidade, destinados à construção da nova Sé Catedral.

 

A obra que se pretendia levar a cabo estava orçada em 20 000 contos, esperando-se que 10 000 pudessem vir de fora da diocese (comparticipação do governo, outras dioceses, fiéis e sacerdotes a viver fora da região) e os restantes correspondessem às comparticipações da cidade (2 000) e das restantes localidades da diocese (8 000).

Tinha-se plena consciência que se estava perante valores muito elevados, difíceis de arranjar numa região pobre.

Dizia D. Abílio na citada Exortação Pastoral sobre Liturgia Sagrada e a Sé Nova:

A cidade de Bragança não possui uma Igreja ou templo que seja monumento indicador da fé de toda a Diocese. Como alguém disse, Bragança continua a única Diocese que tem um Bispo sem Sé e um Cabido sem Catedral, e por consequência um culto sem brilho.

Por toda a Diocese se falava na Sé Nova. Louvava-se a iniciativa do bispo, intemerato, que dava confiança aos fiéis, que mostrava uma vez mais a veia empreendedora que o acompanhava desde que tomara posse da diocese.

Surgiam comissões angariadoras de fundos na maioria das paróquias, trabalhando denodadamente para conseguir as dádivas imprescindíveis.

O Cabido da Sé Catedral quis ser ele a oferecer a primeira pedra para os alicerces, no valor de 100 contos, distribuídos por cinco anos, entrando de imediato com a quota parte correspondente ao ano de 1960.

Não só na Diocese de Bragança a ideia de construir uma Catedral despertou o interesse e a curiosidade de várias pessoas. Também em meios artísticos do país e organizações profissionais a ideia de se ir construir uma Catedral, a última e única do século XX, teve grande repercussão.

Um grupo de arquitetos teve a iniciativa de promover um concurso para o anteprojeto da mesma, com o apoio das entidades oficiais e com um subsídio concedido pela Fundação Calouste Gulbenkian.

O Sr. D. Abílio, para além das normais preocupações pastorais, tinha agora uma outra verdadeira paixão: a de não morrer sem deixar a esta cidade e Diocese uma Catedral digna da sua nobreza e história religiosa.

Dizia o Sr. D. Abílio: “É consolador saber que a ideia de uma Sé Nova vai ganhando terreno em toda a Diocese; as cartas que recebemos, as notícias pessoais que quotidianamente nos chegam, os vales e cheques que se vão registando, são prova que, apesar de um ano fraco e pobre, a ideia é acatada com todo o carinho e amor que merece”.

A Comissão de angariação de fundos propõe que cada lar da cidade contribua com o rendimento líquido de um mês, pagável em cinco anos, o que tornaria menos gravosa a sua contribuição.

As Listas dos peditórios, publicadas periodicamente pelo Mensageiro de Bragança, realizados nos anos de 1960 a 1963 atingiram um valor de aproximadamente 655 mil escudos, muito dinheiro para a altura.

O concurso, organizado a expensas da Fundação Calouste Gulbenkian, decorreria no verão de 1963, devendo, antes do final do ano, estar feito o anteprojeto de forma a pedir a comparticipação do Sr. Ministro das Obras Públicas, o que permitiria começar a obra em 1964, altura do ducentésimo aniversário da transferência da sede da Diocese, de Miranda para Bragança.

Segundo o Sr. D. Abílio: “Sua Exa o Senhor Ministro das Obras Públicas tem manifestado sempre a melhor vontade a respeito da Sé Nova de Bragança e, apesar de continuarmos em estado crítico para a Nação, não duvidamos que ajudará a levar a efeito a construção da Sé”.

D. Abílio havia escolhido para lançamento da primeira pedra da Catedral o ano de 1964, sendo o lugar de implantação a Praça Cavaleiro Ferreira, onde hoje se situa o Teatro Municipal.

A escolha de 1964 tinha a ver com o facto de ser o ano das comemorações do 5º Centenário de elevação de Bragança a cidade e também o ano comemorativo do duplo centenário da transferência da Sede da Diocese de Miranda para Bragança, embora a criação canónica da Diocese de Bragança datasse de 1770 e a união das duas, de 1780.

O Sr. D. Abílio encarava a construção da nova Sé, e cito, “com fé em Deus, na boa vontade da Cidade de Bragança e de toda a Diocese. O Senhor Ministro das Obras Públicas, manifestou-nos o seu interesse, estimulo e boa vontade, prometendo comparticipar as terraplanagens necessárias”.

O júri do concurso atribuiu o primeiro prémio ao trabalho apresentado pela equipa constituída pelos senhores arquitetos Luís Vassalo Rosa e Francisco Figueira, escultor António Alfredo, engenheiro Eduardo Zuquete e Padre Albino Cleto.

Por questões burocráticas obrigatórias – a que não era estranha a necessidade de financiamento por parte do Estado - a diocese de Bragança solicita à Câmara Municipal a apreciação do anteprojeto.

 

 

A edilidade elabora um parecer favorável, solicitando à Direção de Urbanização de Bragança que se pronuncie. Esta, atendendo à localização em zona de proteção de edifícios públicos, envia todo o processo ao ministro das Obras Públicas, conjuntamente com um parecer favorável e uma proposta de pequenas correções.

Pertencia ao ministro das Obras Públicas, considerando a localização da Catedral numa zona de proteção de edifícios, a apreciação do referido anteprojeto. Para o efeito, elaborou um despacho no sentido de ser ouvida a Junta Nacional da Educação.

A citada Junta elabora um parecer no qual, após uma análise ao que se considera obra de arte e ao valor desta nos aglomerados urbanos, se apoia nos seguintes pontos críticos para propor a reprovação do trabalho apresentado:

“Rotura com a tradição das belas composições e obras do passado; ausência de unidade, harmonia e simplicidade; não se encontra exaltada a verdade utilitária e funcional; e não se empregam os materiais da região”.

 

 

Todo o processo transitou, seguidamente, para a Direção Geral do Serviço de Urbanização que contestou o parecer da Junta Nacional de Educação emitindo parecer favorável. Propôs que em matéria de tanta responsabilidade e perante a controvérsia levantada somente pela Junta Nacional de Educação, se consultasse o Conselho Superior de Obras Públicas.

De posse deste conjunto de informações, o sr. ministro das Obras Públicas proferiu o seguinte despacho:

“Em face do parecer do Ministério da Educação Nacional tem de considerar-se o projeto reprovado”.

A notícia, como era de prever, caiu como uma bomba na cidade e diocese.

Após tanto trabalho, tanta dedicação, tanta determinação do Prelado e colaboradores, tantos elogios por peritos de várias áreas ligadas ao anteprojeto, ninguém esperava que viesse a ser reprovado por uma Junta Nacional de Educação, à partida pouco vocacionada para o efeito.

Que estranha atitude!

 

 

 

As pessoas interrogavam-se, perplexas: o que teria levado o ministro das Obras Públicas, até então aparentemente interessado na construção, a mudar de posição, aceitando o único parecer negativo oriundo de uma Junta da Educação, pouco credível nestas matérias?

Mágoa, revolta e resignação, eis como se podia classificar o sentimento da população da diocese.

Uma nova notícia, com óbvias conotações com a reprovação do anteprojeto, abalou toda a diocese, deixando ainda mais consternados os fiéis.

O Sr. D. Abílio Augusto Vaz das Neves pedira a resignação.

O Bispo intrépido e lutador, empreendedor, bem à frente do seu tempo, capitulara, não aguentara a forma pouco clara e ortodoxa como fora reprovado o anteprojeto da Catedral com que sonhara e lutara com tanto afinco!

Mobilizara as paróquias da diocese, os fiéis residentes e na diáspora, os cidadãos não crentes, mas fervorosos defensores da sua cidade capital de distrito. As dádivas que já tinham sido entregues numa fase tão inicial e os seus montantes eram a prova evidente da vontade inequívoca da população em construir a sua Igreja Mãe.

Tudo resvalara a partir de um estranho parecer negativo emitido por uma não menos estranha Junta Nacional de Educação.

A diocese presta ao seu Pastor Conterrâneo uma última e merecidíssima homenagem, agradecendo-lhe todos os esforços, sacrifícios, preocupações que tivera de ultrapassar em prol de um sonho que norteara a última parte do seu peregrinar pela diocese.

Dizia o Sr. D. Abílio: “A minha mágoa não vem da não realização da obra, mas sim do facto de que, se não se realizasse desta vez, Bragança e a Diocese ficariam desacreditados perante o Governo, perante os próprios bragançanos e toda a Nação. Da minha parte fiz o que pude. A partir da tomada de posse do meu Venerando Sucessor oficialmente não posso fazer mais. À Cidade e à Diocese entrego a construção da Sé Nova.”

Quanta mágoa e quanta frustração transparecem nas entrelinhas desta transcrição!!!

Que sofrimento teria tido o Sr. D. Abílio quando recebeu o lacónico cartão do ministro das Obras Públicas a comunicar-lhe que o anteprojeto fora reprovado!

 

O Sr. D. Abílio morreu com a mágoa de não ter conseguido realizar o sonho a que consagrara tantas horas de trabalho e que lhe consumiu as últimas e já poucas forças como Bispo de Bragança.

Tentou tudo, fez o caminho das pedras, sucumbiu perante adversário poderoso e impiedoso.

Oportunamente, quando da saída do livro que acabei de escrever sobre “Bragança no Século XX”, darei a conhecer outras informações complementares sobre o porquê de tal ter ocorrido.

A diocese terá sempre uma dívida de gratidão para tão ilustre Prelado.

Parabéns Sr. D. José por esta decisão de transladar os restos mortais do Sr. D. Abílio Vaz das Neves que merece repousar nesta Catedral."