A opinião de ...

A Guerra da Desinformação

Volto ao tema da circulação de conteúdos falsos e factos alternativos que estão a minar a democracia. A guerra da desinformação é real e devastadora. Não tem fronteiras nem regras, é barata e gera milhões. A extrema-direita europeia, onde pontificam a francesa Marine Le Pen e a italiana Giorgia Meloni, bombardeia as redes sociais com mensagens extremistas de desinformação que são replicadas por milhões de pessoas em diferentes línguas.
O maravilhoso mundo novo das redes sociais é o principal campo de batalha de exércitos apátridas, sem rosto nem lei, que sub-repticiamente destroem os fundamentos da sociedade democrática. Caminhamos a passo largo para a distopia ficcionada por Huxley: o ser humano está a ser subjugado pelas suas invenções e cada vez mais incapaz de pensar e agir por vontade própria. Os algoritmos determinam os gostos e as escolhas políticas. Daí o original agradecimento de Matteo Salvini no dia em que foi eleito: “obrigado a Deus pela internet, obrigado a Deus pelas redes sociais, obrigado a Deus pelo Facebook”. Não é, pois, de estranhar que o presidente da Disney afirme que “Hitler teria adorado as redes sociais”, porque “criam um falso sentimento de que toda a gente tem as mesmas opiniões”.O grande alvo desta guerra da desinformação são as democracias ocidentais. As ditaduras estão salvaguardadas porque criaram barreiras e muros defensivos. E ainda conseguem condicionar os processos eleitorais de outros países, como aconteceu com a interferência russa na eleição de Trump e no referendo sobre o Brexit. Os promotores de informações falsas dispõem de milhares de agentes não remunerados, facilmente manipulados e sem consciência de o serem. Porque não distinguem o que é notícia do que é boato, os internautas “gostam” e partilham, e partilham mais as informações falsas que as verdadeiras. Segundo o Eurobarómetro, 52% dos portugueses não distinguem entre informação e boato que, para ser eficaz, se mistura com meia-verdade. Já o poeta Aleixo dizia que, “para a mentira ser segura e atingir profundidade, tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade”.
Estamos a poucas semanas das eleições para o Parlamento Europeu. As instituições europeias alertaram para a previsível intensificação das campanhas de desinformação, identificaram perigos e fizeram recomendações. Os Estados-membros tomam medidas e definem planos de ação. A Comissão Europeia conseguiu que Facebook, Google, Twitter e outras plataformas assinassem um código de conduta de que já resultou a eliminação de milhares de perfis falsos e de páginas fraudulentas, mas não é mais que uma gota de água atirada para o descontrolado incêndio da desinformação que circula à velocidade da luz. A liberdade de expressão, o direito de informar e ser informado e o voto livre e informado estão a ser adulterados.
Se uma comunidade estiver a consumir água imprópria para a saúde, ninguém tem dúvidas de que os responsáveis serão identificados e punidos. Se a sociedade e a democracia estão a ser ameaçadas nos seus direitos e fundamentos, os poderes democráticos têm de atuar em força e com urgência. Legislar se necessário. Regular a atividade. Aplicar coimas e outras sanções. Cassar licenças. Criminalizar. Ninguém pode olhar para o lado quando está em causa a democracia e o futuro da humanidade.

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