A opinião de ...

Padres navegam nos mares virtuais

O confinamento dos fiéis às suas casas, para controlar a disseminação do Covid-19, acabou por obrigar os sacerdotes a alargar a sua tenda (Cf. Is. 54, 2). A não ficarem confinados às suas igrejas e a lançarem-se nos mares digitais para irem ao encontro das famílias nas suas casas.
Nunca como nestas circunstâncias as paróquias foram tanto aquilo que preconizou São João Paulo II: “A própria Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas” (Christifideles Laici, nº 26). A Igreja teve de se adaptar – e o que não era potenciado passou a ser sugerido e estimulado pelos bispos: a transmissão das celebrações pela televisão, rádio e internet.
O princípio era, e continua a ser, que através destes meios os sacramentos não acontecem. Em contextos como o atual, contudo, acha-se que é melhor isso do que nada. Como disse o Papa Francisco, em tempo de guerra não se pergunta “a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas”. Também agora a preocupação não deverá ser com o que está determinado, mas encontrar formas de ir ao encontro das pessoas e reuni-las, ainda que virtualmente, para celebrar a sua fé.
A Internet revelou-se nesta pandemia – para além da rádio, da televisão e do telefone – como um meio apto para os pastores continuarem em contacto com os seus fiéis. Possibilitou-lhes até alargar – e muito – o seu raio de ação, atingindo pessoas que não iam às suas igrejas, nem a outras. Agora, dada a facilidade de acesso e a disponibilidade de tempo, acabam por assistir e até “participar” nessas celebrações.
Todavia, mesmo em “tempos de guerra” nem tudo é permitido. As transmissões, sobretudo da eucaristia e de outras ações litúrgicas, não podem ser feitas de qualquer maneira. Exigem alguns cuidados, não só litúrgicos mas também técnicos.
Ao visionar algumas das transmissões, que continuam disponíveis on-line, verifica-se que, muitas vezes, os cuidados mais elementares não são respeitados. Por exemplo, há câmaras inclinadas que não acompanham a ação que se está desenvolver, mal enquadradas, operadas de qualquer maneira.
Felizmente, vários sacerdotes da nossa diocese têm dado bom exemplo de como transmitir bem as suas celebrações e, assim, se manterem em contacto com os seus fiéis. Temos bons exemplos de celebrações bem preparadas, bem celebradas, bem cantadas em Mirandela, em Carrazeda de Ansiães, em Alfândega da Fé e às portas de Bragança, na Unidade Pastoral de S. Bento. Bem transmitidas, com boa qualidade de imagem, de enquadramento, de som...
Os párocos dessas comunidades demonstram virtualidades que lhes eram desconhecidas. Seria bom que nos tempos pós-pandemia continuassem a desenvolver essas qualidades e – porque não? – colocá-las ao serviços das minúsculas comunidades espalhadas por toda a Diocese.
Porque não continuarem a transmitir a eucaristia a partir de uma das suas comunidades maiores? Nessas é possível ter um bom coro, um bom grupo de acólitos, de leitores... As pessoas das comunidades mais pequenas devem ser convidadas a reunirem-se na sua igrejinha ou capela para acompanhar essa missa projetada num ecrã gigante. É, aliás, o que já se está a fazer, durante a pandemia, em alguns lares da nossa diocese.

Edição
3777