A opinião de ...

Da sobrevivência à esperança

Ao escutarmos o cântico do ‘velho’ Simeão (cf. Lc 2, 29-32), o nosso coração é rapidamente impelido para a partilha empática, para com o sentir feliz e alegre deste santo homem. Da sua boca sai um dos mais belos hinos e tributos à esperança. Para quem não conhece bem esta figura bíblica, Simeão era alguém aquém lhe fora dito que iria ver e tocar o Messias, o Salvador de Israel, o Filho de Deus. O texto sagrado até o descreve como alguém “justo e piedoso” e, ainda, que “o Espírito Santo estava nele” (Lc 2, 25). Interessa aqui o sinal que dá e o exemplo que testemunha: soube sempre esperar. Confiou totalmente em Deus; acreditou sem reservas na promessa feita por Deus.
E nós hoje temos tanta dificuldade em esperar... Se uma semana, um mês é já muito para esperar, o que dizer deste homem que esperou a vida inteira sem desanimar, sem desalentar e sem desconfiar na promessa feita por Deus!? Eis um belíssimo exemplo para quem tem dificuldade em confiar, em acreditar e em viver em esperança.
O Papa Francisco a este propósito afirma que a esperança é o melhor remédio contra a subsistência, pois “a atitude da sobrevivência faz-nos tornar reacionários, temerosos, faz-nos fechar lenta e silenciosamente nas nossas casas e nos nossos esquemas. Faz-nos olhar para trás, à procura de atalhos para escaparmos aos desafios que hoje batem às nossas portas. Em resumo, a tentação da sobrevivência transforma em perigo, em ameaça, em tragédia aquilo que o Senhor nos dá como uma oportunidade para a missão”.
Só a esperança na promessa – “tinha-lhe sido revelado pelo Espírito Santo que não morreria antes de ter visto o Messias do Senhor” (Lc 2, 26) – podemos como Simeão alavancar a nossa existência de um perfil de sobrevivência para um perfil de futuro, de sonhos, de luz. Só pela graça da esperança me é possível projectar, só nela a minha vida encontra sentido e só nela serei capaz de dar sentido à vida de todos os que me rodeiam.
Na verdade, sem o dom da esperança o mundo tornar-se um lugar e um espaço competitivo, vil, animalesco, violento, incapacitante de gerar afetos e sonhos, de fazer de cada homem uma centelha de esperança e que, tocado por ela, torna o mundo um lugar de superação, de alteridade, de resiliência, de afetos, de doação e de oblação. No fundo, o lugar de Deus...
Eis a pergunta mais difícil: onde me enquadro eu, no registo da sobrevivência ou no registo da esperança?

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3771