A opinião de ...

As eleições americanas em Portugal

Tanto quanto pude acompanhar, os interlocutores dos meios de Comunicação Social portugueses noticiaram e viveram a campanha eleitoral para a eleição do Presidente dos USA (vulgo América) e a contagem dos votos, após a votação, desde o dia 3, com o mesmo fervor dos americanos. Até pareceu que eram eleições portuguesas. Tive o sentimento estranho de que os meus compatriotas querem ser americanos.
Pior fiquei quando percebi que, em Portugal, com excepção dos partidários do Chega, quase toda a gente queria que Joe R. Biden ganhasse a eleição. Ver metade dos simpatizantes do PSD e do CDS a renegarem Trump quando, na prática portuguesa, são conservadores, não cabia nos meus parâmetros políticos, mais parecendo um acto de hipocrisia.
Mas, adiante. A América é assim, pelo menos desde 1961, com uma radicalização quase total, um verdadeiro entricheiramento entre democratas e republicanos. Nos democratas cabem os liberais moderados, os sociais-democratas, os socialistas, os comunistas, os radicais de Esquerda e os arautos dos movimentos ditos progressistas. Nos Republicanos, cabem os conservadores, os liberais radicais, os de Direita moderada, os da Direita radical, os nacionalistas, os pró-regime autoritário e os do novel movimento QAnnon, completamente anarquista de Direita.
O estranho, na América, é que estes dois mundos sejam muito impermeáveis e as eleições sejam quase sempre ganhas «na negra» e com grande suspense até ao fim porque não há muitos eleitores volantes. Mas raramente com tão grande dramatismo como em 2020.
Uma análise que ainda não vi referida é a de que os resultados, até agora, revelam as dificuldades do Partido Republicano em ganhar futuras eleições por causa das alterações demográficas da América. Já há 52% de americanos que não têm origem europeia e isso faz pender a balança para o lado dos democratas. Mas também diz à Europa o que vai acontecer no futuro com a substituição dos brancos por povos de outras proveniências.
Biden terá já vencido com mais de 75 milhões de votos sendo o presumível Presidente e candidato democrata mais votado de sempre. Tal como Trump, com os seus quase 71 milhões de votos será o derrotado e o candidato republicano mais votado de sempre. Estes números revelam a radicalização da América e que Trump, apesar dos seus maus feitio e ignorância, não estava só.
Apesar de tudo, Biden que tem uma eleição fácil num Colégio Eleitoral de 538 delegados (a eleição é indirecta e feita pelos delegados de cada Estado), pode não ter uma vida fácil na articulação dos três órgãos americanos de governo: Congresso, Senado e Assembleia de Representantes. É que a sua maioria no Senado é inexistente; é confortável na Assembleia; e curta no Congresso, soma daqueles dois órgãos.
Tem agora as tarefas de sarar as feridas abertas pelo radicalismo e pelas tonterias de Trump, de fazer uma governação moderada e de tornar a América «normal e influencer again» (normal e influenciadora, outra vez), nas palavras de Teresa de Sousa. Em 2024, veremos se conseguiu.

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