A opinião de ...

O «25 de Abril» não foi dos«capitães de Abril». Foi de todos

«O 25 de Abril» foi há 46 anos. Aquela noite gélida mas libertadora comemorou-se na Assembleia da República. Com a abrangência que a SARS-CoV-2 permitiu mas comemorou-se. E bem. Por cá, nem a Assembleia Municipal nem o PS nem o PSD o comemoraram, não percebo porquê.
Ao contrário de em algumas outras comemorações da mesma efeméride, ninguém se insurgiu contra o «25 de Abril de 1974» mas os porta-vozes do CDS e do Chega insurgiram-se contra a forma da comemoração o que talvez possa significar que não queriam nenhuma comemoração. Deixo o caso para melhor análise do fenómeno linguístico e de comunicação de massas.
Um fenómeno anti-25 de Abril é a sua elitização em «Movimento dos Capitães». Dizer que foram os «capitães de Abril» que libertaram Portugal é completamente falso. O movimento que deu origem ao «golpe» foi transformado em «Movimento das Forças Armadas» em Janeiro de 1974, justamente para poder ter êxito. Tinha de englobar oficiais, sargentos e praças, militares do quadro e militares milicianos. Tinha ainda de englobar Exército, Marinha e Força Aérea, e englobou. E foi porque o Alferes Miliciano Assunção desobedeceu à ordem do Brigadeiro Junqueira dos Reis que o cabo municiador do tanque de guerra também lhe desobedeceu não matando Salgueiro Maia. É, para mim, que estive envolvido naquela noite, intensamente, o momento mais simbólico do «25 de Abril», o momento em que os milicianos, oficiais e praças, ganham a batalha não matando ninguém.
O 25 de Abril não é por isso de ninguém. É de todos e de cada um. É universal. Foi do Povo e pode ser lido e celebrizado por cada um e por cada uma como uma gesta sua, emprestando-lhe todos os significados que uma democracia pode ter.
«O 25 de Abril» libertou-nos de um regime político que não reconhecia a democracia, nas suas diferentes formas, como a melhor forma de governo dos povos. Não se pode desprezar alguém por pensar diferente de nós. Pelo contrário, se alguém pensa diferente de nós, devemos acarinhá-lo, incentivá-lo, estudá-lo porque ele terá razões para discordar de nós. E, se as não tiver, ajudar-nos-á a melhor fundamentarmos as nossas. A democracia é isso: diálogo, confronto de ideias e sua síntese.
Aprendi a ser assim nos Comandos, a tropa que dizem ser de parvos e de imbecis mas que salvou a democracia, em Portugal, ao longo do ano de 1975 porque, internamente, praticava a democracia, para manter o consenso e a coesão interna. E nem os militantes do PCP nos traíram, porque eram irmãos de armas. Só compreende isto quem o viveu. Fui um felizardo por Deus me ter dado a oportunidade de todas estas aprendizagens e de ser diferente.
Por isso, nunca digam que «o 25 de Abril» foi só dos «capitães de Abril». Isso é matar «o 25 de Abril».

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