A opinião de ...

A perigosa estupidez

Tratados sobre a estupidez há muitos, desde ensaios profundos, graves e reflectidos até aos jocosos e obscenos passando pelos de aforismos, citações e os escorados em romances, o monumental O Homem sem qualidades é paradigma disso mesmo, ou de índole filosófica, religiosa e sociológica. Se a estupidez individual assusta, a das multidões amedronta muito mais. O pensador Gustave le Bon (século XIX) em A Psicologia das Multidões explicita o tema e alude às consequências quando o poder da multidão mexe no pote do arbítrio, da demagogia e da exploração das desigualdades sociais. O remexer do conteúdo do pote originou o grande medo pois Robespierre revolvia freneticamente o colheroto obrigando a lâmina da guilhotina a fazer horas extraordinárias não poupando os próprios filhos da revolução. Infelizmente muitos exemplos do mesmo género enlameiam a história dos povos, no entanto, cada episódio sinistro terá de ser analisado à luz do tempo dos acontecimentos, da geopolítica de então, das ideias em voga. Todavia os actos infames não podem ser branqueados e, neste ponto, analisar cuidadosamente se tal acto é ou não é infame.
Nestes tempos de barbas hirsutas (não por acaso) e cabelos engrossados o Mundo instruído tem de voltar a ler A Decadência do Ocidente e as teses do emérito Arnold Toynbee a fim de aquilatarem o que mudou de essencial desde a época desses pensadores até aos nossos dias.
Sucedem-se atropelos ao Estado de direito, multiplicam-se as provocações à civilização que deu à luz a portentosos génios em todos os campos do conhecimento e, por isso mesmo, de modo sistemático porque planeado, triunfou na aventura do conhecimento dos vários mundos do Mundo. As comparações são odiosas, porém comparemos as várias civilizações e façamos o exercício de tirar conclusões.
É, dentro desta deturpação asinina que vale a pena discorrer acerca da nefanda atitude contra a estátua do missionário, pensador, diplomata e homem de acção que foi António Vieira, é no âmago dos imbecis especialistas na destruição de espécies vegetais e obras de arte, por que do estádio da ignorância passaram ao estádio da selvajaria organizada movida pelo odeio à sabedoria, à civilização. Ignaros amantes da estupidez aceitam alegremente a canga da ortodoxia baseada no permanente encosto à mesa do orçamento estatal, os inimigos do humanismo rebolam-se de prazer no momento dos martelos e as latas de tinta conspurcarem os tracejamentos científicos e culturais do Ocidente. Lembrando Karl Valentim: e não se podem suster?

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