A opinião de ...

Não percam a experiência do novo ancião

Iniciava-se o ano de 1940. A II Guerra Mundial (1939-1945) mal havia começado. Portugal, um país dominado por uma economia agrária, pré-industrial, e uma burguesia terratenente, reivindicando a bênção de Deus perante 68% de analfabetos, era timonado por um líder carismático, autoritário, António Oliveira Salazar, obsessionado pela defesa da independência e integridade da Pátria contra o comunismo e contra Espanha, elegendo como escudo e laço de união social o cristianismo católico, como fonte de pão a agricultura e como cultura dominante o bucolismo campestre.
Neste contexto, tinha o Bispo católico de Bragança/Miranda do Douro, D. Abílio Vaz das Neves, em 25 de Novembro de 1939, terreno fértil para a fundação de «Mensageiro de Bragança», como porta-voz dos ideais cristãos católicos, da voz dos interesses da Diocese e das gentes do «Districto», saindo o primeiro número no dia 1 de Janeiro de 1940.
A linha editorial do Jornal manteve-se, quase sempre, oficialmente conservadora e aliada do poder civil durante o Estado Novo. Foi, neste período, um jornal cristão católico, profundamente anti-comunista. No entanto, as pessoas, individualmente e no silêncio possível, não deixavam de professar outras crenças. O próprio Bispo foi vítima da sua solidariedade para com o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, expulso do país, entre 1959 e 1969, pelo Regime Político de Salazar. Na sua passagem por Bragança, foi acolhido no Paço Episcopal. Como castigo, Salazar retirou os apoios à construção da Catedral (um projecto desse tempo), sob pressão dos líderes locais, e acabou por influenciar a substituição do Bispo por D. Manuel de Jesus Pereira (1965-1979)
No período pós-25 de Abril de 1974, Mensageiro não teve uma linha editorial homogénea embora tivesse sido quase sempre dominado pelas elites sociais e políticas do PSD e do CDS. Alguns ventos da Esquerda sopraram entre 1974 e 1976 mas, chegado à Diocese em 1979, D. António José Rafael, procurou dar normalidade ao jornal procurando, sobretudo, garantir-lhe subsistência financeira. Recorrendo a Inocêncio Pereira para administrador financeiro e editorial, Mensageiro de Bragança vai conseguir ser um jornal rico, evidenciando qualidade no papel e nas ideias mas sendo, até 1987, um porta-voz do PSD e do CDS.
A partir de 1984, o PS começou a ganhar a eleição para algumas câmaras municipais e Inocêncio Pereira teve de ceder espaços de opinião, o que foi acontecendo cada vez mais até ao convite a articulistas do PS para a elaboração de artigos de opinião em contraponto com os do PSD e do CDS, a partir do início de 1998. À saída de Inocêncio Pereira, em 2007, Mensageiro era já um jornal pluralista. Os directores seguintes, Padres Calado Rodrigues (2007-2011), Sobrinho Alves (2012) e José Carlos (2013-2014 mantiveram e mantêm este pluralismo político e social, aprofundando a dimensão religiosa do jornal e a sua voz diocesana cristã católica, dimensão mais valorizada pelo actual Bispo, D. José Cordeiro (desde 2011).
Inocêncio Pereira deixou o jornal bem consolidado financeiramente e lançou, bem sucedida, a informatização da produção do mesmo. Calado Rodrigues tentou, sem sucesso, transformar o Jornal em Mensageiro de Trás-os-Montes e Alto Douro mas, com isso, com a reorganização do arquivo do Jornal e a informatização do mesmo, devastou-lhe as finanças.
Hoje, Mensageiro de Bragança é já um velho ancião honrado cuja mensagem continua a brotar da fé nos ideais cristãos católicos, da defesa intransigente dos interesses da região e da luta pela igualdade na dignidade humana. Parabéns e longa vida!

Edição
3505